A mulher cananeia, das trevas para a luz - Harmonização dos relatos (Parte1)

26/12/2016 16:10
                 
Jesus saiu daquele lugar e foi para os arredores de Tiro e de Sidom. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse; contudo, não conseguiu manter em segredo a sua presença.
De fato, logo que ouviu falar dele, certa mulher, cuja filha estava com um espírito imundo, veio e lançou-se aos seus pés.
A mulher era grega, siro-fenícia de origem, e rogava a Jesus que expulsasse de sua filha o demónio.
Ele lhe disse: "Deixe que primeiro os filhos comam até se fartar; pois não é correto tirar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos".
Ela respondeu: "Sim, Senhor, mas até os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças".
Então ele lhe disse: "Por causa desta resposta, você pode ir; o demónio já saiu da sua filha".
Ela foi para casa e encontrou sua filha deitada na cama, e o demónio já a tinha deixado.

Marcos 7:24-30
 
Veja também o mesmo episódio em Mateus 15:21-28:
https://www.biblegateway.com/passage/?search=Mateus+15%3A21-28&version=NVI-PT
 
A perícope em análise é uma das que muitas vezes cria dúvidas na mente dos leitores, sendo que a principal delas é explicar como Jesus, que era sempre tão amável, amoroso e justo, ter inicialmente ignorado e depois respondido de forma aparentemente tão rude a uma mãe desesperada. Devido a tal, esta passagem serviu a muitos ao longo da história como forma de ataque ao caráter de Jesus. Mas como veremos tudo o que ocorreu pretende mais uma vez nos dar uma importante lição de como deve ser o nosso relacionamento com Deus e como é o de Deus connosco. 
Esta também se trata de uma passagem profética que, como veremos mais adiante, se cumpriu totalmente.
 

Introdução

Este episódio passa-se após um intenso trabalho de evangelização de Jesus entre o povo judeu onde foi fortemente confrontado e perseguido pelas autoridades religiosas, dessa forma ele dirige-se a território gentio (= estrangeiro) pagão de forma a poder recuperar as forças. É interessante que este acontecimento é já profético pois posteriormente foi isso mesmo que aconteceu: Jesus sendo rejeitado pelos seus (judeus), foi anunciado e aceite pelo mundo gentio, e assim o evangelho foi difundido em todo o mundo. Voltaremos ainda ao carácter profético da passagem na parte 2.
Nesta primeira parte faremos a harmonização dos dois relatos (Marcos e Mateus) e ainda o enquadramento histórico da relação entre os judeus e os pagãos da região Sírio-fenícia.
 
 
Harmonização de relatos
Grega ou cananeia?
 
Uma primeira aparente diferença consiste na nacionalidade da mulher: De facto, apesar de ambos concordarem na origem da mulher - Sírio-fenícia - Mateus a identifica como cananeia, enquanto que Marcos refere-se a ela como grega, mas como veremos não há qualquer conflito entre eles. A explicação tem a ver com o fato de que os dois escritores - Mateus e Marcos - direcionarem seus respetivos documentos para diferentes segmentos da sociedade antiga. Assim, eles adaptam a sua terminologia para a compreensão dos seus destinatários-alvo.
 
  1. Mateus adapta o seu registo para os judeus.
    Isto é evidente a partir de um número de diferentes pontos de vista. Por exemplo, sua pesada dependência de escrituras do Antigo Testamento indica isso. Ele está escrevendo para aqueles que aceitam as escrituras do Antigo Testamento como autoridade. Assim, com referência a esta mulher que viveu na região da costa marítima na Palestina noroeste, ele chama-lhe “cananeia”. Os habitantes pagãos da terra que Israel conquistou sob Josué eram conhecidos como cananeus, estes eram descendente de Canaã, o neto de Noé (Gn 9:18). Muitos dos cananeus tinha sido empurrados para o norte, para a Fenícia, quando os hebreus invadiram o território de Canaã. Esta mulher foi designada como cananeia porque sua ascendência era desses inimigos de Israel e dessa forma ela foi culturalmente identificada pelos judeus a quem se dirigia Mateus.
  2. Marcos, por outro lado, está escrevendo para o benefício dos estrangeiros convertidos ao cristianismo.
    O evangelho de Marcos também chamado de Evangelho dos catecúmenos, significando que era instrução para os principiantes, aqueles estavam sendo evangelizados. A tradição afirma que Marcos foi secretário de Pedro, tanto que seu evangelho é denominado por alguns escritores da antiguidade como "Evangelho de Pedro". Marcos escreveu este livro, narrando os discursos de Pedro e era dirigido aos pagãos convertidos ao cristianismo. Esse fato é notório pela simplicidade com que expõe os relatos sem grande enfoque nas escrituras do velho testamento, assim como o uso de termos mais conhecidos e falados entre os gentios. O facto de Marcos usar o termo “grega” para identificar a mulher, ocorre pois  o termo é frequentemente usado em todo o Novo Testamento em sentido genérico para designar os gentios que naquele tempo e naquela região tinham absorvido a cultura grega (Helenização)  fruto da expansão da mesma devido às conquistas de Alexandre Magno naquela região. Tanto assim é que algumas versões até traduzem mesmo dessa forma, trocando o “grega” por pagã:
    {Essa mulher era pagã, de origem siro-fenícia.} Ora, ela suplicava-lhe que expelisse de sua filha o demónio.
    Marcos 7:26
    Fonte: https://www.bibliaonline.com.br/vc/mc/7

Enquadramento histórico

Os cananeus
 Baal era um dos deuses cananeus a quem eram oferecidos sacrifícios de crianças
 
Os cananeus foram uma das nações expulsas pelos judeus da terra prometida. Deus assim tinha ordenado para que os judeus não se contaminassem com os seus costumes imorais. A verdade é que Imoralidade, adoração pagã a demónios e sacrifícios humanos, inclusive de crianças eram muito comuns entre os cananeus
O historiador bíblico Henry H. Halley (1) observou que os arqueólogos, ao escavar a área, encontraram “grande quantidade de jarros contendo os despojos de crianças ... que tinham sido sacrificadas a Baal [um deus importante dos cananeus]”. Ele acrescentou: “A área inteira se revelou como sendo cemitério de crianças recém-nascidas...” Era assim, praticando a licenciosidade como rito, que os cananeus prestavam seu culto aos deuses, e também assassinando seus primogénitos, como sacrifício aos mesmos deuses.
Dessa forma os judeus (numa altura que os preconceitos raciais e religiosos eram bastante exacerbados), tendo padrões morais mais elevados devido à Lei Mosaica, consideravam (justificadamente) os cananeus como pagãos selvagens e imorais, denominando-os de “cachorros” devido aos seus sangrentos e perversos costumes (na minha opinião, devido às atrocidades cometidas por esse povo, isso até chegava era a ser sim uma ofensa aos cachorros). Assim alguns se apressam a dizer que Jesus chamou “cachorra” a esta cananeia como preconceito racial quando afirma mais tarde na passagem:
Mas Jesus disse-lhe: Deixa primeiro saciar os filhos; porque não convém tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos.
Marcos 7:27

 Muitos tentam arranjar falhas em Jesus valendo-se da deturpação da verdade. Como veremos mais uma vez, tudo isso é simplesmente ignorância ou má fé

 
Mas como vemos (e entenderemos melhor na Parte 2 onde voltaremos a este ponto) Jesus apenas faz uma analogia comparativa entre judeus e cananeus relativamente ao seu próprio ministério neste mundo, Jesus não lhe chama diretamente “cachorra” (ainda que use um termo mais suave pois diz “cachorrinho”), como eram considerados os cananeus devido às suas abomináveis práticas. E essa analogia pode até parecer rude e dura mas tem uma razão de ser como veremos na próxima parte onde explicaremos o sentido bem mais profundo deste acontecimento e perceberemos o porquê das palavras de Jesus. 
Continua...
 

Referências:

(1) Henry Hampton Halley
https://en.wikipedia.org/wiki/Henry_Hampton_Halley
 

Fontes:

The Canaanite Woman: A Conflict between Matthew and Mark?
https://www.christiancourier.com/articles/468-canaanite-woman-a-conflict-between-matthew-and-mark-the
Porque Deus Expulsou os Cananeus de suas Terras?
https://bibliotecabiblica.blogspot.pt/2009/09/porque-deus-expulsou-os-cananeus-de.html